quinta-feira, 20 de novembro de 2008

a minha única certeza

"Eu estava meio deitado no sofá. Ela deitou-se ao meu lado, levou a mão à minha cara e depois beijou-me. Eu nunca fui muito frenético a fazer amor. É bom, depois de passado o tempo do desejo, sermos inundados de ternura por causa da pessoa que se tem ao lado. Foram os beijos e as festas que, a pouco e pouco, íamos fazendo pelo corpo, a desapertar botões e a abrir fechos, que nos levou a tirar a roupa: uma peça agora, outra um pouco depois. Fizemos amor como dois namorados já antigos, com muito carinho e muita conversa à mistura.

- O que eu gosto mais é da tua paz - dizia-me.
- A minha paz é igual à tua.
- Pois é. Mas não é costume amar em paz. Há no amor um tique qualquer de adolescência que pôe as pessoas meio ansiosas.
- Eu acho que passei toda a minha vida a querer amar mas emperrava sempre no modelo que nos deram e nesse eu já não acredito.
- Viver o amor é qualquer coisa diferente dos jogos, normalmente perversos, do seu ego carenciado. Eu secalhar sou muito egoísta porque, antes de te conhecer, os homens davam-me muito trabalho. Andavam ali nuns enredos infantis, inteiramente ao lado do que eu estava à espera. A minha relação com os homens deu-me a sensação de tempo perdido. Eu, de um homem quero o afecto, do resto não preciso: não preciso das suas confidências, das suas angústias, das suas inseguraças. Posso ouvi-las e tentar ajudar mas não são coisas que se levam para a cama que ela não foi feita para isso. A cama é o nosso repouso, é o nosso recreio. A minha experiência de homens é que, a certa altura, sentia-me uma educadora infantil, o que não é exactamente a minha vocação. Mas as mulheres não desgostam disso. Andam com a maternidade atravessada e adoram um homem a queixar-se no ombro e a fazer birras. Quando surge o amor para além do desejo, julgo que há uma espécie de iniciação: um desapego dos pesos do mundo e um aceno do mistério da transcendência.

Eu cheguei-me mais a ela. O seu corpo, a sua mão, a sua boca, eram, naquele momento, a minha única certeza.
- Sabes, hoje estou naqueles dias em que a minha única certeza é o teu afecto..."

António Alçada Baptista, "O riso de deus"