sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Desculpa Deolinda, mas estás enganada

Geração parva? Geração rasca? Geração à rasca? Nunca uma geração teve tantas condições. Nunca uma geração teve tantas oportunidades de escolher/frequentar um curso universitário. Nunca uma geração teve tanto apoio económico ou social. Nunca uma geração teve tantos meios como a internet, bibliotecas, cursos, workshoops, informação, telemóveis, meios de transporte, casa dos papás, mesada para noitadas. Geração preguiçosa, isso sim! Nem para votar se levantam do sofa. Se não gostam de quem nos governa. Se não gostam da oposição, pelo menos votem em branco. Dizer que não resolve, é fácil. Reclamar no café com a barriga cheia, é fácil.

Fácil não é com certeza a vida da S. que tirou um curso superior que não lhe arranjou trabalho. E ela reclamou? Sim, mas fez-se à vida e está perto de acabar um segundo curso com mais perspectivas de emprego. E não teve papás para lhe pagarem os estudos. Teve que trabalhar a muito custo num centro de explicações.

Fácil não é a vida do F. que apesar de viver em casa dos pais, dá aulas e levanta-se ás 4 da manhã para frequentar o conservatório de Sevilha, para ter um futuro melhor. O curso de economia deu-lhe emprego? Não, mas deu-lhe a música, porque não foi parvo. Parva não é a Deolinda também, nem esta geração. Parvos são os papás que alimentam uma geração preguiçosa.

Nada no mundo é a preto e branco. Há uma infinidade de tons de cinzento. Num mundo ideal os empregados que não gostam ou não precisam de trabalhar, dariam o lugar aos desempregados que querem trabalhar.

Num mundo ideal, o Taguspark não pagaria, com dinheiro público, 350 mil euros ao Figo por 4 horas de publicidade.

Num mundo perfeito, os donos de pequeno comércio e mercearias não pagariam uma taxa de IRC superior à que pagam os bancos.

Num mundo ideal, o bastonário da ordem dos advogados não viria a público denunciar juizes e procuradores do ministério público de pré-combinarem sentenças, transformando os julgamentos em mediocres peças de teatro.

Num mundo perfeito toda a gente teria emprego. Mas o mundo não é perfeito. E só nos resta fazer parte do problema, ou da solução. A escolha é nossa.

Geração parva? Sim, se forem na cantiga e não mexerem o rabinho.

4 comentários:

Ana Omelete disse...

Finalmente, alguém diz aquilo que eu penso tantas vezes! Quantos reclamam porque os papás não lhes pagaram o curso, ou porque os papás não lhes arranjaram uma cunha, ou, pôrra, porque é que hão-de-se esforçar por encontrar um TRABALHO se os papás ou a famelga lhes pode encontrar algo melhor,
enfim...
geração parva e preguiçosa sim, porque quem quer, dos que eu conheço, arranja TRABALHO ou EMPREGO.. Agora, há muitos que só querem EMPREGO, para não TRABALHAREM.

Beijinhos amigo e bom fim-de-semana!

Filomena disse...

Olá Ana...
Não posso concordar contigo. Ouviste bem a canção? Leste a letra? Aquilo que a música expõe, bem mais do que um lamento e a constatação de um problema social (não neguemos a situação precária de muita gente), é uma força pessoal para lutar contra isso. É isso que canção diz. Acho que se está a fazer uma leitura errada da canção. É a minha opinião.

Sayuri disse...

Eu sabia que havia uma razão mais profunda para não gostar de nenhuma musica dos Deolinda! :)

Loca disse...

Concordo, plenamente.

Obrigada Ana por nos teres mostrado este texto excelente.

E, Filomena, é certo que há empregos precários e quem tenta e não consegue, mas esta geração acomoda-se. Apenas quer fazer se for à sua maneira, nas suas condições, com as suas regras. Não trabalha porque o que consegue arranjar é precário mas o café, o cigarrinho e as saídas são financiadas por alguém.... e assim se vai vivendo, com a desculpa do precário.