domingo, 12 de outubro de 2008

O espelho

Nunca gostei de espelhos e agora percebo porquê.

Esta história remonta à minha adolescência, numa altura em que vivia com os meus pais numa casa de campo enorme na aldeia. No meu quarto tinha um guarda-fatos gigante, que parecia debruçar-se sobre mim. Raramente o usava por detestar um espelho de corpo inteiro que revestia a porta interior. Até que num fim de semana com os meus pais ausentes, enchi-me de coragem e finalmente decidi remover aquele portal para uma outra dimensão que me atormentava sempre que o abria. Desmontei o espelho e com todo o cuidado, levei-o para as traseiras da casa e coloquei-o num anexo que servia para arrumos.

Finalmente iria dormir em paz, mas paz foi coisa que não tive nessa noite. Como se de um sacrilégio se tratasse o meu gesto indiguenou um qualquer deus dos espelhos e fez desabar sobre a minha aldeia, uma ira em forma de vento.

Quando me preparava para dormir, eis que a porta do anexo dos arrumos abre-se e desata num pranto horrivel.Sim, sim, não, sim, não, não, não, sim, não... impossivel dormir assim!
Enchendo-me de coragem e com a minha espada de madeira na mão, decido enfrentar a noite densa e o vento uivante. Lembro-me de ter percorrido o pequeno caminho que une a casa ao anexo com o som do meu coração a acompanhar o uivo do vento.

Chegando ao anexo apanho um valente susto ao ver a minha imagem reflectida no espelho. Tinha-me esquecido do maldito espelho. E senti-me um perfeito idiota por me ter assustado daquela maneira. Era só a minha imagem reflectida no espelho. Entretanto reparei numa coisa esquesita. A imagem reflectida no espelho não era a minha. Quer dizer, à primeira vista era eu, sem tirar nem pôr, mas bem via que aquele não era eu. Obviamente que era eu, mas um outro eu. Um "eu" que existia fora de mim, que nunca deveria ter existido. Não consigo explicar melhor. Torna-se difícil traduzir um sentimento desses em palavras.

Uma coisa, porém, eu sabia: aquela outra figura detestava-me até dizer chega. Deixei-me estar ali um bocado, sem saber de que terra era. Ali ficámos, a olhar um para o outro. Pela minha parte, não me conseguia mexer, como se estivesse atado de mãos e pés.
Por fim ele mexeu a mão. Os dedos da sua mão direita tocaram no seu queixo, e amarinharam como um insecto pelo seu rosto. Ficámos a olhar um para o outro. De repente, dei-me conta de que eu estava a fazer a mesma coisa. Até parecia que era eu o reflexo no espelho e que ele estava a tentar controlar os meus gestos.

Apelando à minha última reserva de coragem, libertando-me dos grilhões que me prendiam àquele lugar, ergui no ar a minha espada de madeira e desferi um violento golpe no espelho desatando a correr de seguida. Ainda ouvi o vidro a estilhaçar-se no chão, mas nem olhei para trás, apostado em alcançar a segurança do meu quarto. Durante todo este tempo, o vento lá fora nunca deixou de soprar com violência. O portão do anexo continuou sempre a bater e a fazer barulho até ser dia. Sim, não, sim, não, sim, sim, não...

Aquilo que eu vi não foi um fantasma. Vi-me pura e simplesmente a mim próprio. Até hoje nunca mais me esqueci do terror que senti naquela noite. E quando me lembro do ocorrido, vem-me sempre o mesmo pensamento ao espírito: neste mundo, o mais assustador de tudo somos nós próprios e os nossos pensamentos.

Obrigado Haruki Murakami e à rapariga que inventou um sonho.

3 comentários:

Era uma vez................. disse...

Aé posso estar redondamente enganada, mas será que tudo não passou do facto de teres que enfrentar os medos ou o terrivel desconhecido???????
O cavaleiro com a sua espada foi enrentar o dragão, mas apesar de ferido parece que ainda ficou debaixo da cama.

RM

Paulo disse...

RM
ainda hoje acordo a meio da noite alagado em suor, ainda agarro com força na minha espada de madeira e me olho em frente do espelho, mas não, já não preciso de o partir, apenas digo para mim mesmo com o sorriso mais estúpido do mundo: bolas... estas cada vez mais feio...

e tenho uma cama rasteirinha...

euexisto disse...

tenho esse livro! é bonita essa, mas gosto mais da ascensão e queda dos azedos

cumprimentos!